terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Feliz Natal



A Canção Errante de Natal
por Joel Puga

Com o som de flautas, a canção abriu os olhos. Estava num parque, rodeada de crianças a brincar e pinheiros cobertos com luzes multicoloridas.
Conforme as flautas construíam um crescendo, ela elevou-se acima da copa das árvores. Durante uns segundos de silêncio, ali ficou, parada, observando a cidade. Depois, iniciou-se uma batida ritmada, e a canção voou avenida abaixo. Havia pessoas por todo o lado, admirando as luzes nos arcos e nas fachadas dos edifícios, e, sempre que se cruzavam, diziam “Feliz Natal”.
Uma voz começou a cantar, acompanhando a batida, e a canção entrou num apartamento. Passou pelo pinheirinho, ornamentado com bolas, faixas e estrelas, e pelo pai, que preparava e decorava a mesa, até que chegou à cozinha, onde se sentia um cheiro a mel e a canela, e a mãe, ajudada por um rapaz e uma rapariga, preparava varias iguarias.
 Mal saiu do apartamento, a canção sentiu um forte impulso de ir para norte. Acima das nuvens, anjos contavam o pré-refrão, enquanto ela voava à velocidade do som.
Chegou ao pólo-norte, avistou a enorme fábrica do Pai Natal, e o refrão começou. Num gigantesco hangar, uma legião de diminutos elfos carregava com prendas centenas de trenós e alimentava as respectivas renas. Não muito longe, num anfiteatro, o Pai Natal original instruía os seus inúmeros clones e atribuía a cada um uma pequena parte da Terra. A canção até passou pela fenda que ligava o nosso mundo ao da imaginação, por onde, durante todo o ano, passavam os robôs gigantes, os dinossauros, os póneis cor-de-rosa e tudo o mais que os elfos usavam como modelo para os brinquedos que fabricavam.
O refrão terminou, e a voz começou a cantar um novo verso. A canção voltou ao sul, à cidade, onde a noite já havia caído. Pessoas sozinhas, casais, famílias inteiras andavam nas ruas, dirigindo-se às casas de familiares ou amigos. A canção viu-os ser recebidos com abraços e beijos, aos quais eles retribuíam com garrafas de vinho e travessas cheias de rabanadas, filhoses e sonhos.
No início de um novo pré-refrão, a canção entrou numa das casas. Viu adultos a falarem à volta da mesa, enquanto crianças brincavam debaixo dela. Alguém chamou da cozinha e alguns dos adultos deixaram a sala, voltando pouco depois com travessas cheias de bacalhau, polvo e peru. Todos se sentaram à mesa. Uma das mães acendeu as velas. E o refrão começou.
Durante horas, ficaram ali sentados, a comer, a conversar, a cantar músicas de Natal. No fim da refeição, ficaram em silêncio a ver um filme familiar. Até que chegou a hora das crianças irem para a cama. Os visitantes partiram, voltando para os respectivos lares, enquanto a mãe da casa foi deitar os filhos. Estes, a princípio, não conseguiam dormir, entusiasmados com as prendas que os esperariam de manhã no sapatinho, mas o cansaço acabou por os vencer. O refrão deu lugar ao solo. Durante a noite, todos os instrumentos conhecidos do homem tiveram o seu momento de ribalta.
A canção desceu à sala, chegando mesmo a tempo de ver um dos clones do Pai Natal teletransportar-se do telhado. Do saco, tirou duas prendas, pousando uma ao lado de cada um dos sapatinhos em cima da lareira. Depois, voltou a desaparecer.
Ao raiar do dia, as crianças acordaram, dando início ao refrão, correram escadas abaixo e abriram as prendas. Durante toda a manhã, brincaram com os novos brinquedos, enquanto o refrão se repetia uma e outra vez. Depois, chegou a hora do almoço. Com um talher numa mão e o novo brinquedo na outra, comeram as sobras da noite anterior, enquanto os pais se deliciavam com um prato de roupa velha.
O almoço prolongou-se até meio da tarde, quando os pais começaram a limpar a mesa. Foi então  que todos se aperceberam de que o Natal estava a chegar ao fim.
A última repetição do refrão deu lugar ao som de flautas. Exausta, a canção deixou a casa e flutuou de volta ao parque. Deitou-se debaixo dos pinheiros e, aos poucos, fechou os olhos, ansiosa por acordar de novo no próximo Natal.

FIM

sábado, 21 de dezembro de 2013

O Hobbit: A Desolação de Smaug (2013)


Novamente, a minha única visita ao cinema do ano foi para ver mais um dos filmes da trilogia "O Hobbit". Não dou o tempo nem o dinheiro por perdido, se bem que devo confessar que preferi o filme anterior (cuja versão estendida vi pouco antes da minha ida ao cinema).

Visualmente, o filme é irrepreensível e penso que nesse aspecto supera até a trilogia de "O Senhor dos Anéis". Das fantásticas paisagens ao colossal Reino Debaixo da Montanha, passando pela cidade dos elfos e Esgaroth, tudo forma um cenário épico além de tudo o que me lembro de ver em cinema. E o mesmo pode ser dito da banda sonora e dos efeitos especiais. E, como na trilogia de "O Senhor dos Anéis", a atenção prestada aos detalhes cria um mundo de tal forma realista que nos puxa eficazmente para dentro da história.

Porém, pelo menos para mim, o grande defeito estava no guião, em particular no excesso de cenas de luta. Estas estavam bem feitas, se bem que tinham alguns momentos um poucos exagerados, e possuíam um sentido de humor muito próprio, mas tomavam de tal forma conta da narrativa que esta mais parecia uma sequência de lutas interligadas do que uma história. Também não gostei particularmente do final. Embora não seja particularmente difícil de deduzir, mesmo para aqueles que não conhecem o livro, o que vai acontecer a seguir, gostava que este filme tivesse tido um melhor fecho, como o filme anterior.

Apesar dos elementos que não apreciei no filme, divertiu-me imenso. Que mais não seja, merece ser visto pela maneira como explora e expande a versão cinematográfica Terra Média. Se são fãs de fantasia épica, é um filme a não perder.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

"Herbert West – Reanimator" H.P. Lovecraft


Escrita como uma paródia a "Frankenstein", esta história é considerada como uma das piores do autor, inclusive pelo mesmo. Devo confessar que os elementos de paródia me escaparam, assim como não é uma das histórias do autor de que menos gostei, antes pelo contrário.

A influência de "Frankenstein" é inegável. Existem paralelismos óbvios entre as duas histórias, e as referências ao clássico de Mary Shelley são mais do que muitas. São porém, e embora partilhem a mesma ideia, no seu âmago, histórias diferentes. Enquanto em "Frankenstein" os aspectos mais mórbidos são deixados em segundo plano e se focaliza, em vez deles, os pensamentos e os sentimentos das personagens de forma a enquadrar moralmente a história e fazer passar a mensagem central, aqui tornam-se o centro das atenções. Não que não exista um aspecto moral em "Herbert West - Reanimator" na forma como nos são mostrados os pensamentos do narrador, o melhor amigo e assistente da personagem titular, mas as experiências e as criaturas que delas resultam são descritas com mais profundidade e estas são de uma natureza bem mais macabra. Nota-se que, ao contrário de "Frankeinstein", esta história foi criada principalmente para causar impressão e estranheza no leitor.

"Herbert West - Reanimator" consegue invocar com alguma eficácia terror e horror, e, embora a história seja contada em episódios temporalmente afastados, a evolução das personagens está bem conseguida. Mais talvez do que as criaturas e o desenrolar da história em si, o que mais me fascinou foi a forma como as experiências de West se tornam cada vez mais macabras e o narrador se horroriza cada vez mais com elas, ao mesmo tempo que se mostra incapaz de obrigar o amigo a parar ou sequer de o deixar.

Apesar de fraca recepção que teve, esta é uma das minhas histórias favoritas de H.P. Lovecraft e não foi só a mim que me fascinou, como provam as várias adaptações de que foi alvo.

sábado, 16 de novembro de 2013

sábado, 9 de novembro de 2013

Opinião sobre o "Almanaque Steampunk 2013"


No blogue "O Papiro de Sehshat" podem ler uma opinião sobre o "Almanaque Steampunk 2013" e os textos incluídos na secção de contos, incluíndo do meu "Antília - A Cidade Subaquática Portuguesa".

Conto da Minha Autoria na "Antologia Fénix de Ficção Científica e Fantasia - Volume II"


Foi lançada no passado dia 31 de Outubro o segundo volume da "Antologia Fénix de Ficção Científica e Fantasia", dedicada ao Halloween, onde, entre outros contos de autores portugueses, brasileiros, espanhois e argentinos, podem encontrar um meu intitulado "A Pergunta". A antologia está disponível gratuitamente em formato digital no Smashwords.

sábado, 14 de setembro de 2013

"The Keys of Marinus" "Doctor Who" (1964)


"The Keys of Marinus" é o quinto seriado da famosa e longeva série de fc britânica "Doctor Who". Na minha opinião, este é o seriado em que a série encontra o seu ritmo e a sua identidade. Se os seriados anteriores já tinham imensos elementos que aprendemos a associar a "Doctor Who", este é o primeiro que se apresenta como indubitavelmente "Who" (podemos defender que isto já ocorreu no seriado anterior "Marco Polo", mas como "Marco Polo" é um dos famosos episódios perdidos, que só se encontra disponível na forma de 30 minutos de fotografias acompanhadas por uma faixa áudio, é difícil dizer com certeza).

O seriado foi escrito por Terry Nation, o criador dos infames Daleks e autor do segundo seriado "The Daleks", e penso que aqui ele faz um trabalho superior ao da sua primeira tentativa, com a qual confesso que fiquei um pouco desiludido. A escrita é competente, por vezes até genial, e também confirmamos o que já parecia ser o principal talento de Terry: a criação de locais diferentes e extremamente imaginativos. Se em "The Daleks" tivemos uma floresta de pedra com animais metálicos em que os predadores caçavam através de magnetismo, aqui temos vários ambientes diferentes, dos quais destaco a ilha cercada por um oceano de ácido que se encontra sob ataque de inimigos que viajam em submarinos de vidro.

Infelizmente, este seriado, como uma boa parte dos episódios clássicos, está recheado de falhas de efeitos especiais e continuidade. Carole Ann Ford continua a ser o elo mais fraco no elenco, mas os restantes actores fazem um papel competente (se, obviamente, compensar-mos o estilo de representação da época, bem diferente da actual). A cenografia continua genial e é um dos elementos que mais apreciei.

"The Key of Marinus" rapidamente se tornou um dos meus seriados favoritos da série clássica de "Doctor Who". Despertou em mim um sentido de aventura que só "Doctor Who" consegue. Obrigatório para todos os fãs da série clássica e para os amantes da fc televisiva.